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Adotiva

Mari Lucarini

 

Adotiva (2013) é um livro de artista e contém 96 páginas divididas entre os capítulos cor azul, cor rosa, cor amarela, cor vermelha e cor branca. Os capítulos se iniciam através de páginas transparentes feitas com papel vegetal e pintados com tinta aquarela.

 

Prefácio

 

Água-viva

De quando em quando, preciso estar aquática, estirada sobre o líquido incolor que a vida me traz, exposta a uma tira de sal. O acompanhamento da limpidez esmaece, fazendo com que eu me sinta parte da natureza milenar. Aos poucos me camuflo, me entendo, me demudo. Tudo aqui é espacial e imenso – pareço ter dois corações. Da luz que se mede na importância de meu corpo, encontro a linha triste entre o desvario e a perpetuação. Pendurada, compreendi a água e suas capacidades, serenas demais para me abrigarem. Do mundo sou parte, sou uma água-viva.

Sobre 

A busca pela maternidade, acrescento, é um artifício incrível para dar-me conta de que, sozinha, pertenço demais às mais primitivas formas de nascimento, estando eu ainda atada aos meus traços umbilicais e de origem proteica.

Visto que busco, em todas as formas de escrita, um encontro - a residência do ser e do saber -, nada mais me contenta do que incitar a literatura a me mover e promover viagens exclusivas, uma vez que um texto, bem imaginado, transporta em si a importância de se estar percebendo as variantes da vida, imprevisível e altamente sensitiva. 

Adoto em mim a unanimidade das sensações, que passeiam em forma de música, em forma de livro, em forma de imagem, em forma de palavra. Busco a maternidade nos filmes sensacionais que me dão sentido, nas folhas completadas por um coração impetuoso, nas carreiras musicais que me balançam o espírito e comovem meus alentos. Sou o conjunto dos sentidos próximos, aliados sempre à intuição e à emoção taciturnas que residem em alguém inexperiente, mas imaginativo.

Sempre soube, porém, que a fotografia por si só, nunca me bastou. Assim como preciso dos óculos para enxergar o todo (mas não para perceber a forma), preciso da escrita para a repercussão da voz interna. A aliança entre a adoção desses materiais e a inclusão por trás deles, poderá recriar neste livrinho, uma análise de todas as minhas artes preferidas, reunidas com o objetivo de fazer-me completa (ou pelo menos percebida) através da apresentação das páginas.

Um pequeno livro, documento amigo de bolso, formará um conjunto de textos, imagens fotográficas e boas intenções. Nele, além de produções próprias, poderão ser encontrados outros autores, tais quais fotógrafos, escritores e compositores. 

Viso aqui, qualificar as seriedades do pensamento e da meditação, apresentando-os na configuração de um livro íntimo e único, simples e consultivo. Ele reúne as instâncias de uma vida de pesquisas e amores, já que nele poder-se-á encontrar as qualidades do mundo vigente.  

Dessa maneira, todos esses meios de transporte (a literatura, a escrita dos sons, os ícones), darão nascimento a um roteiro não cronológico de argumentações silenciosas, bordando sozinho a acanhada aventura de se encontrar nos personagens e citações sinceras. 

Acima de tudo, é um trabalho de consulta pessoal, a fabricação de uma nova grafia, onde ao abrir o livro, ele mesmo contará a sua história, sem o auxílio de grandes entendimentos, já que será sentido pelas inteligências da visão humana e sentimental.

Autorretrato

O conhecimento que tive com o autorretrato, sensato a ponto de gostá-lo, partindo da questão de que não gosto de ser fotografada e evito fotografar-me, insere aqui uma importante conquista, tanto para a ilustração do livro quanto para o meu auto reconhecimento através da imagética do íntimo. Afirmo, sobretudo, que a importância de reconhecer-me em uma fotografia sempre fora uma coisa grave, algo tempestuoso que causara-me diversas vezes a aversão e o descontentamento. Sempre me opondo à apresentação de minhas próprias imagens, onde o rosto, cru e válido, dissolve-se na análise que tenho ao observar as questões que essa prática me proporciona, evitava a totalidade das revelações. Tenho medo. A partir desta história, resolvo mudar um pouquinho meu senso crítico, acreditando que esse exercício poderia, com toda a certeza, fazer com que eu me enxergasse de forma abismal, na crueldade da maneira com que a fotografia diz, e diz muito. Propus para minha irmã – já que há anos a fotografo com constância, devido à nossa companhia e minha pequena habilidade de fazê-la pura – que me fotografasse, ao mesmo tempo em que eu criaria uma espécie de autorretrato. Em um sábado, nós duas dispostas em nossa casa, li a ela uma porção do meu trabalho, e lhe disse: “Giovana, hoje será a sua vez de me fotografar. Dou meus olhos para o seu olhar.” Dito, fomos começar o ensaio. Sugeri a mim mesma que usasse uma roupa que quase ninguém me vê com frequência adotando no corpo. O vestido, rosa e afetuoso, atravessava um enorme impedimento e incitava o descobrimento da matéria-prima que de mim era feita. Fomos ao jardim, e também fomos ao meu quarto. Não muito sugeri, na verdade. Queria que ela delimitasse o espaço em que sua visão e sua sensitividade se dispusessem à câmera. Em um dos últimos cliques, a escolha estava feita. Agradeci minha irmã por ter me deixado sem medo, como se soubesse que a naturalidade já estava habitada em mim, embora disso eu não soubesse ainda. A implicação desse estágio, não imprimindo a rigidez que muitas vezes demonstro, teve uma sequela interessante e concorrente. Concorrente, digo, com referência ao meu espírito empreendedor, porém enclausurado, nunca tentando as maneiras cabíveis e extraordinariamente simples de se atuar no mundo, contra agir e explorar as vaguezas do poder. Não posso muito, disso sei. 

Desde pequena usufrui dessa forma de conter-me em alguém, pessoas que por muitas vezes de mim se distanciavam e talvez esqueciam-se. Tornei maior a válvula de uma carência imprescindível de aprender a ser humana, e há não muito tempo, fui crescendo, do mesmo modo em que desejei por muitos anos ser amada e respeitar quando amo.

Desta lição tiro a sabedoria; ver-me nos olhos de outra pessoa e assim ser interpretada. O autorretrato, por sua vez, tem como uma de suas finalidades eternizar-nos. Ele é disposto ao cortejo do não-esquecimento, à validade de que ali existiu alguém e esse alguém, primordialmente ou não, ansiava tornar-se documental, uma lembrança nascida. 

Einstellung
Centro Universitário Senac - Campus Santo Amaro
Exposição fotográfica de Projetos Integradores
30 de agosto a 14 de setembro, 2013
Trabalho exposto: Adotiva (2013)