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De mim só as metades

Mari Lucarini

 

A efígie por fim se exaure: sou a morte em fotografia. De que me importa a idade, as compaixões, se tudo vagueia sobre a luz difusa que afunda o quarto e me incendeia. O ensaio, denominado De mim só as metades, reúne, nesta específica exposição, nove fotografias. Esse espectro que cabe em mim como película adjacente, faz-me criar o que penso ser minha ausência, minha limitação. Sinto-me egoísta, pura, desgastada, venerada; meu corpo não é mais material, é virtualmente ilícito, impossível. Como Barthes, estou entre parênteses, aspiro apenas o que me conquista em lucidez. 

Sutil é o instante que me parte; não sou mais a alma adequada, sou a imagem imaginária e refratada, como me sinto quando o escuro me acaricia. Sou revelada por uma continuidade não física. Minhas fotografias se dilatam — é impraticável caberem em um só espaço. Como Vivian Maier, elas foram um segredo (por quanto tempo?), um ritual que prezava a memória e o sentimento afetuoso, a transcendência que comemora meu reconhecimento no outro. 

Ademais, nunca havia me fotografado. Digo, nunca havia pensado minha imagem como retrato propenso a um sentido vulnerável. Utilizei-me de camadas (acentuada granulação, a face coberta, a fotometria subexposta) precisamente para reencontrar-me através de céus não vistos. Acredito que meu rosto não seja minha identidade, e solenizo, pois, a representação que me oferece um sentido amplo de sua própria plasticidade. 

A fotografia, sabedora e interminável, que não é esotérica e nem capaz de distinguir-me, faz com que potencialmente eu me iluda com a presença aguda do instantâneo, expondo minha pele e o descontentamento pelo indivíduo revolvido. Nem minha é: é de alguém mais essa imagem que te reconhece como parte sua, parte metade.

Trabalho exposto na exposição Quimera — autorretrato como expressão fotográfica

Para que nos serve um autorretrato? Que ânsia nos motiva a fotografar a nós mesmos? Será que um autorretrato se define pela simples presença de nosso semblante na fotografia?

Indagações desta natureza despontam em nossas mentes ao nos depararmos com a pluralidade e a complexidade da produção destes oito fotógrafos que aqui se apresentam.

A investigação conceitual atrelada a uma busca estética é a condição primordial compartilhada por cada um destes ensaios que se constroem através das mais diversas estratégias, mas que sempre contemplam o amálgama coeso e indissociável entre conteúdo e forma. 

Neste contexto privilegiado de produção reflexiva, somos levados a deduzir que o autorretrato extrapola a necessidade do autoconhecimento ou da afirmação identitária. Aqui, o autorretrato refina-se e aprofunda-se, assumindo a incumbência de levantar questões que permeiam nosso entorno e atravessam a nossa existência; questões que nos inquietam e que por vezes nos desestabilizam e, por isso mesmo, nos impulsionam adiante. É neste campo movediço, repleto de incertezas e desejos, que estes fotógrafos desenrolam suas pesquisas imagéticas  que pretendem ultrapassar os limites epidérmicos das meras aparências.

Porém, conscientes de que a fotografia é capaz de nos desvendar apenas por partes, ou seja, de maneira fragmentária, facetada e superficial, as poéticas destes fotógrafos operam subversivamente ao transmutarem tal deficiência do meio fotográfico em qualidade indefectível: o que se apresenta na planitude da imagem nos leva a vislumbrar algum vestígio de essência humana que se esconde em nossos próprios interstícios. Numa operação às avessas, repousa na superfície das imagens a possibilidade de um mergulho nas inquietações que comovem, paralisam, repercutem e nos alçam novamente à superfície destas mesmas imagens.

Nesta exposição, somos convidados a percorrer universos imagéticos quiméricos afim de encontrar uma ponta de lucidez em nossas próprias existências.

Texto por Patricia Yamamoto