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Dente de leite

Mari Lucarini

 

Um romance é uma segunda vida - Orhan Pamuk 

Dente de leite é uma obra que contempla em seu desígnio primário, vinte capítulos literários que conduzem e impressionam as estruturas da prosa ficcional que, aliada à pesquisa dissertativa e aos componentes imagéticos que defluem o enredo em implementos fundamentais para o comprometimento visual das palavras, formatam o livro como um conjunto de experiências que coloca o leitor a par de percepções inseparáveis de suas próprias sensibilidades. É, sobretudo, uma narrativa sobre a impermanência, a maternidade e o amor. 

Ademais, considera a acepção de uma nova categoria fotográfica, um termo que determino de fotografia cinematográfica ou fotografia cinestática. O trabalho tem como desempenho compreender a ponte entre a literatura (a ficção, o leitor), o cinema (a cena, os fotogramas) e a fotografia (narrativa enquanto momento cativante para o ofício do atributo cinemático). 

A protagonista, muda, completa quatorze anos quando, ao ser abandonada pela mãe, é despontada à inaptidão de sozinha acompanhar-se ao longo da estadia em sua casa. O incompreensível efeito da partida ocasiona-a a geminados desprendimentos, dentre os quais se suscita à independente convivência com o isolamento e as implicações que a farão descobrir a renúncia de seus costumes e a reparação de inéditas explorações.

Introdução

Diziam-me, pois, que minha sensibilidade era demais inabitual, um tanto quanto incompreensível, e aliavam-na à fragilidade, e muitas vezes, à fraqueza. No entanto, acredito que quem em si vincula muitos sentimentos, e torna-se, em algum momento, alguém sensível e puramente sensitivo, possui a destreza de encontrar-se recebedor de sinestesias que engrandecem sua disposição inventiva. É preciso muita coragem para sabê-las, e delicadeza para preservá-las. E, precisamente, nessas interferências inumeráveis posiciono meu trabalho, presente entre as brevidades, o apego e a confluência de ambos.

Em meu pequeno aprendizado sobre os dentes de leite, também nomeados de dentes decíduos ou temporários, deparei-me com o que considero uma acepção insinuante para o contexto, abrangendo em seus valores, metáforas que possam elucidar de maneira acurada o que impregno em minhas personagens, individualizando-as como um lapso da memória e da fragmentação da infância perene. É nesta, porém, onde o vulnerável atinge seus dimensionados amadurecimentos em função da instabilidade e da inconsciência do crescimento, da ponderada mudança de constâncias que interpelam as crianças de forma quase imperceptível — tão tênue quanto à esfumaçada noite, fragilizada pelos pontos que fazem as luzes e as sortes gravitarem. 

O surgimento desses elementos, os dentes de leite, anuncia-se com a ontogenia (ramo da biologia que se dedica ao estudo das origens e desenvolvimento de um organismo), e faz-se irromper ao longo do segundo semestre de vida do ser humano. Considero-o, portanto, fase embrionária de todo o sentido de impermanência; um símbolo para a condescendência entre as coisas temporárias que interferem sobre a permeabilidade da vida e sua transitoriedade aparentemente não lúcida, suavemente fugaz.

A história


A narrativa contempla a protagonista que, aos quatorze anos de idade, fulgura-se como cometa (ou finge-se de), pois só conhece a eternidade, e nela decanta todos os subjetivismos que a envolvem placidamente, como se fosse ela a ausência de toda a difícil rememória, do choro que purifica seu asseado coração esquerdo, das bolas de chicles que, como Clarice, parece mesmo a sinonímia de algo eternamente aflitivo. Mas, mesmo que pense saber sobre essa empatia assiduamente permutável, é parte dessa infindável carência — faz-se de si uma provisória casa para as coisas sem nome e, momentaneamente diz baixinho e em escala contemplativa: “Sim, sou da eternidade, pois pareço não ter idade alguma”. 

É nesse momento irresoluto (e incógnito) de sua vida que reconhece: foi o sol que adormeceu poente, e é a mãe que de repente desaparece e não retorna. Dente de leite expõe a impermanência tanto quanto sua inevitabilidade — dolente e rememorativa —, além de considerar essa transferência o ato pensativo e muito afetuoso de sua prosperidade infantil. Apesar de esse amadurecimento evidenciar-se por meio de muitas passagens onde a personagem apenas nos diz sobre o que antessente e inventa, ora ponderando também sobre o verão e os pais que parece nunca conhecer, indica que o que anseia é a compreensão de sua própria densidade, o alcance de tudo o que é impossível e semelha-se imaginável. 

Ademais, abona uma qualidade que gosto de mencioná-la como um dom: é muda e, quando não por sinais, comunica-se ao historiar ou retrair-se em um sensível receio de não fazer-se ouvida. A provisoriedade da paternidade, de sua amizade, do amor (e o que floresce com ele), da nascente efemeridade sobreposta aos acontecimentos que a reinventam, urge em sua camada mais saturada de percepções, e vislumbra-se em sua maturidade feminina e pueril. É também um semblante triste, indefinidamente triste; ela é como um adeus imperfeito. Assim, os sintomas da efemeridade que se impõem mesmo que não os esperemos, espelham a cronologia que se adapta à cadência refinada de uma fase enflorescida pela saudade e alacridade.

 

Sendo substituída pelos dentes permanentes ou pelas invisibilidades enternecedoras, a terníssima versão do fim da infância — incapaz de compreender-se em seu próprio tempo — e o súbito presente, se ocasionam em direção a tudo o que nunca ficou. Talvez o que eu tente ser presencia-se nesses adjetivos referidos, ou talvez para minha personagem eu escreva sem que jamais me esqueça, pois o tempo a que aludo é uma imagem inseparável do passado e uma partilha incomensurável de meu futuro.

Dente de leite - a fotografia como linguagem cinematográfica é igualmente uma monografia resultante de meu trabalho de conclusão de curso, em 2014. Acima, as particularidades finais da entrega do livro dissertativo, que ao todo possui 320 páginas, todas na cor creme.

 

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Título: Dente de leite - a fotografia como linguagem cinematográfica
Autora: Mariana Lucarini
Ano: 2014

 

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Dente de leite coexiste em três vertentes homônimas: uma obra literária que deu origem à história e ao projeto fotográfico; uma monografia como parte do trabalho desenvolvido para minha conclusão de curso; e, ainda, corresponde ao foto-filme.